O fenómeno teve origem nos anos 90 com Cicciolina.
À época, os italianos depositaram os seus votos numa prostituta de profissão como resposta à corrupção política e social sistémica.
Era o contraste necessário face a uma classe política que, entre ligações à Máfia e à P2, transformara o Estado num verdadeiro prostíbulo institucional.
Seguiu-se, na minha memória, o Tiririca no Brasil:
"Você sabe o que faz um deputado federal? Na realidade, eu também não sei, mas vote em mim que eu te conto. Pior que tá, não fica."
Ao votar em um palhaço assumido, o eleitor enviava uma mensagem de desdém ao sistema.
Para entender como reverter o "inversor do descrédito democrático", é fundamental olhar para modelos que atacam diretamente os pontos:
controle financeiro rígido, metas quantificáveis e a educação prática do eleitor.
Países como a Suíça e alguns modelos nórdicos (Dinamarca e Noruega) criaram mecanismos que retiram a política do campo do "vazio ideológico" e a trazem para o campo da gestão de resultados.
Aqui estão os mecanismos que servem como "antídoto" para os problemas citados:
O "Travão ao Endividamento" (Suíça)
Diferente de muitos países onde o orçamento é uma peça de ficção, a Suíça aprovou constitucionalmente o Schuldenbremse (Travão de Dívida).
O Mecanismo (Como):
O governo é obrigado por lei a manter os gastos em equilíbrio com as receitas ao longo de um ciclo económico.
O Inversor do Descrédito Democrático :
Isso obriga os políticos a apresentarem financiamentos credíveis.
Se um político quer propor um novo benefício, ou remodelar um mau funcionamento orgânico, ele deve dizer exatamente de onde sairá o dinheiro ou qual imposto será aumentado.
Isso elimina as "promessas milagrosas" que enganam o eleitor menos instruído.
Democracia Semidireta e o "Eleitor Gestor"
Na Suíça, qualquer cidadão pode questionar uma lei aprovada pelo parlamento ou propor uma nova através de referendos (se colher assinaturas suficientes).
Educação na Prática: Antes de cada votação, o governo envia para a casa de todos os cidadãos um livreto explicando os prós e contras, os custos envolvidos e o impacto no orçamento.
O Resultado:
Isso força o eleitor — independentemente da escolaridade formal — a se envolver com a ideologia da viabilidade.
O debate deixa de ser sobre "eu gosto do político X" e passa a ser sobre "eu aceito pagar mais por esse serviço Y?".
O Modelo de Transparência Radical (Escandinávia)
Na Dinamarca e na Noruega, o controle de políticos e financeiros é garantido pela transparência total e passível de punição.
Transparência de Gastos: Quase todos os gastos públicos, incluindo os cartões corporativos e despesas de gabinete, são publicados em tempo real e podem ser auditados por qualquer cidadão ou pela imprensa.
Baixa Distância de Poder:
Os políticos não possuem as mesmas imunidades ou privilégios financeiros (como salários astronómicos ou auxílios luxuosos) vistos no Brasil ou na Europa do Sul.
Isso reduz o incentivo para que a corrupção seja "inerente ao poder", pois a política deixa de ser um meio de enriquecimento pessoal e passa a ser um serviço civil temporário.
Metas Quantificáveis:
O Exemplo da Nova Zelândia
A Nova Zelândia adotou, em décadas passadas, o modelo de Contratos de Gestão para o setor público.
Como funciona:
Ministros e altos funcionários não têm apenas "funções"; eles têm metas específicas (ex: reduzir o tempo de espera hospitalar em 15% até dezembro).
Responsabilização: Se as metas não são atingidas e não há uma justificativa técnica aceitável, o financiamento do departamento é revisto e a liderança é trocada. Isso aproxima a política da eficiência da iniciativa privada, combatendo a sensação de que "nada acontece".
Conclusão
O descrédito democrático diminui quando a política deixa de ser uma questão de fé (acreditar em promessas) e passa a ser uma questão de contrato (verificar metas e custos).
Nesses modelos, o "Tiririca" teria dificuldade em prosperar como protesto, pois o sistema já oferece canais diretos para o eleitor controlar o dinheiro e as decisões.
Por favor, PENSEM NISTO e em como podemos caminhar para lá.
Bom Natal!
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