Nascido na década de 1950, sinto que a idade não me turvou a memória.
Recordo-me de que, na minha juventude, a Segunda Guerra Mundial me parecia um evento longínquo, quase abstrato; não a tinha vivido e, por isso, pouco me dizia.
Todo o conhecimento que adquiri sobre o tema veio de breves lições escolares ou do cinema, sem nunca aprofundar os seus antecedentes cruciais, como o Tratado de Versalhes, a fragilidade da República de Weimar ou a ascensão democrática de Hitler.
Hoje, percebo que um jovem absorve, fundamentalmente, a realidade da sua própria geração, mostrando pouco interesse pelo passado, mesmo quando este esteve na origem de grandes cataclismos.
Esta constatação ajuda-me a compreender a atual adesão a fenómenos como o Chega.
As gerações mais novas não viveram os quatro anos de guerras coloniais; não sentiram o luto pelos familiares perdidos ou pelos que regressaram física e psicologicamente mutilados.
Não partilharam o desespero do "1 milhão de retornados", forçados a abandonar as vidas que tinham construído em África para enfrentar um futuro incerto.
Não vivenciaram a instabilidade do 25 de Abril de 1974, a agitação do PREC, a crise económica que se seguiu, nem o fôlego de esperança que surgiu apenas com a entrada na CEE, em 1986.
Quem não viveu estes marcos — nomeadamente aqueles com menos de 50 anos — dificilmente terá a dimensão necessária para os compreender ou para se defender das distorções e manipulações que deles são feitas.
Qualquer força política oportunista que manipule o passado, denigra o presente e prometa um futuro ilusório, colherá frutos eleitorais fáceis.
E assim será até que a realidade, sob a forma de desilusão, desmascare o engodo e revele a Verdade.