A escolha e o apoio de Montenegro à atual líder do Ministério da Saúde — figura que transitou diretamente da direção de External Affairs e Market Access da multinacional MSD Portugal (indústria farmacêutica, entre 2006 e 2014) — levanta sérias dúvidas éticas, agravadas por uma gestão técnica já amplamente contestada.
Estaremos perante um Ministério da tutela pública ou um bastião de interesses farmacêuticos?
Esta nomeação adensa o ceticismo gerado pela promessa de reestruturar o SNS em escassos 60 dias.
Sem, sequer, a apresentação de um plano estruturado e transparente, assiste-se hoje ao agravamento sistémico dos serviços de saúde.
O problema, contudo, é mais profundo e corrói a nossa arquitetura constitucional:
Que qualidade democrática resta quando o incumprimento deliberado de promessas eleitorais goza de total impunidade?
Vivemos num modelo onde o Governo, enquanto órgão executivo não eleito diretamente, pode ser preenchido por individualidades cujos passados, conflitos de interesses e escrutínio público permanecem opacos para o eleitor.
Urge rever as regras do jogo se quisermos devolver a transparência ao sistema e resgatar a confiança na vida coletiva.
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