Estou exausto de observar como a narrativa mediática dominante — estruturalmente dependente de grandes grupos económicos e financeiros — molda a perceção pública sobre a corrupção.
Ao longo das últimas décadas, assistimos a uma cobertura desproporcional e persistente dos desvios éticos e financeiros de políticos de esquerda, transformando o escrutínio legítimo em autênticas campanhas de desgaste.
Em Portugal e em Espanha, a política de esquerda tem sido, sistematicamente, tambor para as baguetes mediáticas.
No entanto, quando olhamos para os grandes colapsos financeiros e desfalques bancários operados por grandes capitalistas, a abordagem muda drasticamente.
Falamos de verbas astronómicas que foram socializadas (pagas com o dinheiro dos contribuintes), mas cujas responsabilidades criminais foram diluídas em narrativas abstratas sobre "crises do sistema bancário em geral"..
Os nomes dos decisores privados envolvidos raramente recebem o mesmo grau de linchamento público mediático ou a mesma personalização obsessiva dada aos protagonistas políticos.
Deste duplo critério mediático — muitas vezes blindado pelo argumento da "liberdade de imprensa" — resulta um subproduto perigoso:
A erosão da confiança pública na política e nas instituições democráticas!
Ao focar a indignação popular predominantemente na classe política (e com particular afinco na esquerda), abre-se um vazio representativo.
É precisamente desse descontentamento capitalizado que se alimentam as forças populistas e a extrema-direita, que se apresentam como "antissistema", omitindo que defendem, afinal, o mesmo modelo económico desregulado.
Para repor a verdade histórica e analítica dos últimos vinte anos, importa cruzar os dados da realidade:
Em Portugal
- Pela Direita e Grande Capital (Macro-financeiro)
- Universo Espírito Santo (BES/GES): A acusação do Ministério Público calculou os prejuízos globais do colapso do grupo em cerca de 11,8 mil milhões de euros. Só o Fundo de Resolução e as injeções públicas subsequentes no Novo Banco custaram milhares de milhões aos contribuintes.
- BPN (Banco Português de Negócios): O Tribunal de Contas estima que o custo acumulado da nacionalização e da gestão dos ativos tóxicos (através da empresa pública Parvalorem) já ultrapassou os 5,9 mil milhões de euros de dinheiros públicos, havendo o risco de o buraco final ascender a perto de 10 mil milhões de euros até ao encerramento total do processo.
- Pela Esquerda (Esfera Política):
- Operação Marquês (José Sócrates): No epicentro do caso, o Ministério Público acusou o ex-Primeiro-Ministro de acumular uma fortuna oculta na Suíça (através de testas-de-ferro) avaliada em cerca de 24 milhões de euros, alegadamente proveniente de subornos e luvas de grupos económicos (como o Grupo Lena e o Grupo Espírito Santo). O pedido global de indemnização cível ao Estado imputado a vários arguidos do processo foi fixado em 58 milhões de euros.
Em Espanha
- Pela Direita e Grande Capital (Macro-financeiro):
- Caso Gürtel e Papéis de Bárcenas:
- Embora a contabilidade paralela ("Caixa B") do Partido Popular envolvesse alguns milhões de euros em subornos diretos, a justiça confiscou só ao extesoureiro Luis Bárcenas mais de 48 milhões de euros ocultos em contas na Suíça. O impacto sistémico na contratação pública fraudulenta e favorecimento de empresas privadas é estimado em dezenas de milhões de euros.
- Caso Bankia (Resgate Bancário): No plano do grande capital financeiro gerido pela direita (Rodrigo Rato), o colapso e subsequente resgate público da Bankia custou ao Estado espanhol mais de 22 mil milhões de euros, dos quais a esmagadora maioria nunca foi recuperada pelo erário público.
- Pela Esquerda (Esfera Política):
- Caso dos ERE na Andaluzia (PSOE): O maior escândalo judicial da esquerda espanhola envolveu a criação de um sistema ilegal de distribuição de ajudas sociolaborais.
- A sentença judicial definitiva fixou o montante total do fundo fraudulento desviado das contas públicas em 680 milhões de euros, distribuídos ao longo de uma década por empresas em crise, autarcas e redes clientelares.
Ou seja, 22.048.000.000 à
Direita, 680.000.000 à Esquerda.
Em suma, a corrupção deve ser combatida sem olhar a quadrantes ideológicos.
Contudo, enquanto o ecossistema mediático continuar a hiperbolizar os desvios da esfera pública e a anestesiar ou despersonalizar a pilhagem económica operada pela elite financeira, a democracia continuará a sofrer de uma assimetria perigosa.
O populismo não cresce no vácuo; cresce na sombra de uma indignação seletiva promovida sistematicamente pelos media!
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